Empreendedorismo, muito além de Mark Zuckerberg

Esse fim de semana, passeando pelas redes sociais me deparei com uma matéria da Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios com o título 7 coisas que empreendedores de verdade não fazem”. Essas listas têm me cansado. Mas às vezes a curiosidade vence e, dessa vez, resolvi abrir. Não demorou 2 minutos e fechei. Foi só ler o primeiro item da lista para já desistir. Agora que decidi escrever sobre isso até abri o artigo novamente e reconheço que há pontos válidos ali, se lidos com olhar crítico. Mas vamos ao primeiro ponto e porque ele me incomodou tanto.

O ponto 1 da lista dizia: “Empreendedores de verdade não equilibram trabalho e vida social”. É mesmo?! Meus amigos, vou fazer a minha própria lista agora. Ela vai se chamar:

“3 razões para não acreditar em listas que tentam te convencer que há receita pronta para realizar seu sonho.”

#1: Só você sabe qual é seu sonho. Os sonhos dos outros podem até ser parecidos, mas só quem o vive sabe o que ele significa, em toda a sua importância individual e, ao mesmo tempo, em toda a sua pequeneza diante da imensidão do mundo.

#2: Foi-se o tempo em que ser feliz era cursar uma boa universidade, formar-se numa profissão que te desse uma vida financeiramente estável, casar-se com um(a) rapaz(moça) de família, ter filhos e aposentar-se. Se é que esse tempo algum dia existiu. O que certamente mudou foi que nunca antes na história da humanidade tantos de nós tivemos tantas possibilidades de escolha. Tanto, que a ansiedade se tornou “O mal do século”. Ora, como não sofrer de ansiedade se continuamos tentando nos encaixar em listas que parecem determinar os ingredientes certos para uma vida feliz, apesar de haver tantas outras possibilidades passando por nós diariamente?

#3: Sempre haverá novos obstáculos a superar. E o maior deles é o nosso próprio medo. Cada um tem o(s) seu(s), e todos nós o temos. O medo é um excelente ilusionista, experts em distorcer a realidade e fazer os obstáculos parecerem maiores do que são. Só você poderá encontrar forças dentro de si para controlar seus próprios medos e deixar que sua auto-confiança fale mais alto. Há várias formas de fazer isso, dentre elas, falar abertamente sobre seus medos e aprender com os exemplos de outras pessoas são práticas muito úteis. Mas APRENDER não é repetir cegamente o que seus exemplos de vida fizeram sem refletir sobre o que está fazendo.

Mas o que isso tem a ver com a minha birra contra a afirmação Empreendedores de verdade não equilibram trabalho e vida social? Explico-lhes quebrando essa afirmação em mais 3 pontos, já que, à essa altura, devo ter desenvolvido certo vício por estas tais listas.

#1: “Empreendedor de verdade”: ser empreendedor não é adquirir um título. Ser empreendedor é desenvolver uma atitude “fazedora” perante a vida, visando a realização de seus objetivos e aspirações sem esperar que as soluções simplesmente caiam do céu. Já me deparei com algumas pessoas por aí que poderiam ser “empreendedores de mentira”. Não porque dedicavam mais ou menos tempo aos seus projetos. Alguns deles até pareciam trabalhar longas horas e persistir no seu projeto por muito tempo. Talvez as duas grandes diferenças entre eles e os verdadeiros empreendedores que conheci fossem seu nível de autoconhecimento e, a partir disso, sua visão de futuro. Os “empreendedores de mentira” com quem cruzei caminhos, dedicavam muito tempo para as questões práticas dos seus projetos, mas não se permitiam entender seus próprios “porquês”. Aliás, quero deixar claro que apesar de tê-los chamado de “empreendedores de mentira” para contrapor à matéria da PEGN que comento aqui, não acho esse tipo de rótulo nem um pouco adequado. A atitude empreendedora é algo que desenvolvemos ao longo da vida, em maior ou menor grau, dependendo de nossas próprias escolhas. Não tem nada a ver com rótulos.

#2: “Não equilibram”: todos nós vivemos diversos papéis ao mesmo tempo. Alguns mais, outros menos. A Alice filha, Alice irmã, Alice amiga, Alice colega de trabalho, Alice sócia, Alice fornecedora, Alice cliente, Alice mentora, Alice dona de casa... Todas elas fazem parte de quem eu sou e são necessárias, em mais ou menos grau, para meu equilíbrio interno. Darei mais ou menos ênfase a cada um dos meus papéis conforme a necessidade do momento. Decerto, foco é fundamental para a realização de qualquer projeto. Mas a jornada empreendedora é difícil, com muitos altos e baixos. Todos que escolhem passar por ela, passam por momentos em que é necessário o apoio de pessoas queridas ou divergir o foco para estimular a criatividade e, assim, encontrar soluções diferentes para determinado problema. Se nos focamos excessivamente na meta e não nos permitimos momentos de “despressurização” acabamos por ficar estressados, pré-ocupando-nos com questões que estão fora do nosso alcance. Acho que a grande dúvida é: quanto de foco é demais ou de menos? Como determinar minhas prioridades? Uma boa dica é listar todas as atividades que fazem parte do seu dia-a-dia e identificar quais te dão energia e quais te tiram energia. Você se sentirá mais centrado, ou seja, equilibrado à medida que conseguir minimizar as atividades que te tiram energia e maximizar as que te dão energia.

#3: “Trabalho e vida social”: É aqui que se esconde o maior dos mal-entendidos sobre o que é ser empreendedor, na minha opinião. Ser empreendedor é diferente de ser empresário. Ser empreendedor é uma questão de atitude perante a vida, independente se seu projeto de vida é ter uma empresa ou não. É muito comum separarmos “Trabalho” numa caixinha completamente diferente do resto da vida – amigos, família, lazer, etc. Quer dizer então que não podemos nos divertir enquanto trabalhamos? Nem trabalhar enquanto nos divertimos? Não podemos sair para tomar uma cerveja com os amigos e falar das nossas idéias de negócios/projetos sociais/sonhos que queremos realizar? Ou aproveitar um belo domingo estirado na praia para ler um livro que tem tudo a ver com um projeto que estamos realizando? Talvez a grande diferença entre uma pessoa mais ou menos empreendedora é que ela coloca seu poder de realização em prol de suas paixões, talentos e sonhos; ela quer tanto fazer acontecer, que faz. Isso não tem nada a ver com a separação entre trabalho e vida social. O que acontece é que uma pessoa muito empreendedora acaba por ocupar tanto do seu tempo com a realização de seus projetos que isso, mais cedo ou mais tarde, se torna sua atividade principal e ela dá um jeito de transformá-la em seu ganha-pão.

Note que em momento algum aqui tive a pretensão de determinar o que é sucesso. Muitos, ao falarem de “empreendedores de verdade” ou coisas do gênero, pressupõem que sucesso é sinônimo de ser um empresário famoso e milionário, ser o próximo Mark Zuckerberg ou afim. Será? Não tenho nada contra estas definições de sucesso, apenas sou contra a idéia de que há apenas um caminho mágico para o sucesso – o que me faz voltar para meu primeiro ponto: Só você sabe qual é seu sonho.

Portanto, que tal aproveitarmos mais esse momento único de nossa história em que temos tantas possibilidades ao nosso alcance? Se essa infinidade de opções te aflige, não se preocupe, você não está sozinho. Abrace sua complexidade, experimente mais, divirta-se com seus equívocos e celebre seus acertos. A vida não é linear, aproveite suas curvas! ;)

Um abraço!

Alice

Marina Trindade